Barragens de rejeitos seriam 10 vezes menos seguras que estruturas similares, sustenta consultor chileno

por GeoHydroTech Engenharia em 22/Aug/2019
Barragens de rejeitos seriam 10 vezes menos seguras que estruturas similares, sustenta consultor chileno

De acordo com as estatísticas de falhas de barragens, as barragens de rejeitos são muito menos seguras do que estruturas similares, como as barragens de hidrelétricas ou as utilizadas em saneamento. A frequência de ruptura das barragens de rejeitos tem sido em média de um caso para 1.000. Já a frequência de falha de barragens de hidrelétricas é 10 vezes menor – na proporção de um caso para 10 mil. “Não é aceitável esta diferença”, sustenta o engenheiro e consultor chileno Luis Valenzuela, especialista em barragens reconhecido internacionalmente. “As mineradoras precisam fazer algo drástico e urgente para melhorar esta situação”, acredita o consultor. “A forma como em geral as mineradoras estão gerenciando os depósitos de rejeitos, e particularmente as barragens de rejeito, coloca em risco inclusive a sobrevivência de muitas companhias do setor”. (Imagem: CESCO)

(Imagem: CESCO)

Em entrevista concedida no dia 12 de agosto à equipe de comunicação da ABMS (Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica), o engenheiro chileno lembrou que a segurança das barragens de hidrelétricas pode ser ainda maior, com a frequência de ruptura sendo estimada bem abaixo do que um caso em 10.000. O mesmo não acontece com a média das barragens de rejeitos.

“Tais estudos indicam que as mineradoras estão entregando à sociedade uma estrutura de nível muito inferior às que são oferecidas por outros setores que também utilizam barragens, como o de geração de energia hidrelétrica e o setor de abastecimento de água”, sustenta Valenzuela.

O consultor lembra que as barragens de rejeito são construídas ao longo de muitos anos, diferentemente das barragens de água, que têm um prazo curto de construção – algo em torno de cinco anos. O longo prazo de construção é um desafio para a gestão das barragens de rejeito, já que muita coisa pode acontecer neste tempo. “Isto é um fato”, afirma Valenzuela. “Não pode, no entanto, ser uma justificativa para que nada seja feito para melhorar a confiabilidade deste tipo de barragem”.

Muitas companhias do setor estão em busca de procedimentos tecnicamente mais adequados e soluções para agregar mais segurança às barragens de rejeitos. Muitas mineradoras estão, por exemplo, adotando as recomendações de organizações internacionais como ICMM (International Council on Mining & Metals), CDA (Canadian Dam Association) e MAC (Mining Association of Canada). Umas delas é tirar a responsabilidade pela gestão do rejeito do final da hierarquia de produção.

Para Luis Valenzuela, que fez este ano uma série de palestras sobre este tema, apresentadas em eventos internacionais realizados no Chile, o chefe da área de rejeitos não pode atuar na linha de produção da mineradora, nem atender necessariamente a todas as prioridades estabelecidas por este setor da empresa. Ele deve ocupar um nível de gestão mais alto, com um acesso o mais direto possível ao comando máximo da companhia.

A segurança da barragem deve ser o objetivo principal desse profissional, que deverá ter poderes inclusive para autorizar a realização de investimentos necessários à segurança da estrutura. Em condições críticas deve ter inclusive autoridade até mesmo de parar a produção se necessário, mesmo que isso acarrete prejuízos à empresa. O objetivo secundário é prover as condições necessárias para o depósito dos rejeitos.

Em relação as tendências atuais na gestão de depósitos e barragens de rejeito, outra figura importante é a do “engenheiro de registro”. Detentor de muita experiência e conhecimento, ele deve ser o responsável por levantar e estudar tudo que aconteceu até aquele momento na barragem. Cabe a ele também aprovar qualquer alteração na estrutura.

O engenheiro de registro tem a obrigação de documentar tudo – tanto as informações do passado quanto as informações produzidas ao longo do tempo. Ele deve ter comunicação direta com os níveis superiores da empresa e a obrigação de alertar sobre qualquer desvio em relação aos procedimentos de construção ou operação que possa colocar em risco a barragem.

A mineradora deve ter ainda um Independent Technical Review Board – um grupo de especialistas de alto nível que faz uma ou duas visitas intensas por ano à barragem. Baseado em entrevistas com o engenheiro de registro, com o representante da mineradora e com o time que trabalha e supervisiona a construção e operação da barragem o grupo elabora um relatório que indica tudo o que não está indo bem e informa aos níveis superiores. Na próxima visita, o Board verifica e informa aos responsáveis pela empresa quais recomendações foram seguidas e quais ainda requerem atenção.

Disseminando conhecimento

Luis Valenzuela participa hoje de um amplo e agudo debate da comunidade técnica em relação à segurança de barragens. Ele tem levado sua experiência e expertise para empresas e profissionais de todo o mundo, em especial no Chile.

Na Cesco Week Santiago 2019 – evento promovido anualmente pelo Centro de Estudos do Cobre e da Mineração (Chile) e realizado em abril na capital chilena – foi dedicado um dia inteiro a discussões acerca das barragens de rejeitos. Valenzuela, como um dos principais nomes do setor, foi um dos convidados para debater o tema. Ele está ainda percorrendo diversas empresas e universidades com palestras sobre a importância da análise e da gestão do risco nas barragens de rejeitos.

O responsável pela barragem

Um dos temas abordado pelo engenheiro em suas palestras para mineradoras e representantes da comunidade técnica diz respeito à responsabilidade pela barragem. Para reduzir substancialmente os riscos de rompimento de barragens, ele considera essencial aceitar que a responsabilidade final pela segurança da barragem seja do proprietário do empreendimento. Nos casos das barragens de rejeitos de mineração, “a mineradora é a responsável absoluta pela segurança”.

Para Valenzuela, a mineradora deve contratar a melhor empresa de engenharia para realizar os estudos necessários. “Vale ressaltar que quando falamos em melhor empresa estamos considerando aquela mais qualificada para o serviço e não a que tem menor preço”, destaca o especialista.

Mas, além da contratação da empresa mais qualificada, é preciso que a própria mineradora tenha em sua equipe pessoas de alta competência para acompanhar os estudos feitos pela empresa contratada e fazer as exigências necessárias. “A companhia de mineração tem de ter certeza do que está sendo feito. É ela que tem de tomar as decisões. A mineradora é a responsável absoluta pela barragem”.

Igreja Anglicana pede transparência às mineradoras

Acionista de algumas das principais empresas de mineração do mundo, a Igreja da Inglaterra entrou com toda a sua força e prestígio no tema da segurança das barragens de rejeitos. A Igreja Anglicana enviou recentemente um completo questionário às principais companhias mineradoras do mundo exigindo transparência em relação aos depósitos de rejeitos sob responsabilidade de cada empresa. No questionário, a Igreja pede informações sobre quais desses depósitos estão ativos e qual é a classificação dessas estruturas em relação a diferentes “classes”, aparentemente seguindo as definições da CDA (Canadian Dam Association), que classifica o nível de risco associado a uma possível falha – incluindo vítimas humanas ou impactos ambientais significativos.

O questionário foi entendido por todos como uma forma de cobrar das mineradoras o que realmente elas estão fazendo em relação à segurança das barragens. Além disso, o questionário pedia informações a respeito da organização da empresa para gerenciar o risco de rompimento das barragens.

A experiência chilena

O Chile é o maior produtor de cobre do mundo e um país onde a indústria de mineração é bastante avançada. “A segurança é a principal discussão hoje. Venho tentando convencer as companhias da importância de analisar todas as possibilidades de falhas”, lembra Valenzuela. “Tem de ser feito. Não adianta seguir somente o que exige a legislação. As empresas têm de seguir as recomendações das melhores práticas internacionais”.

Um dos avanços da mineração chilena aconteceu após o rompimento da barragem de El Cobre, em 1965, que deixou mais de 200 mortos. O acidente aconteceu em decorrência de um terremoto, fenômeno bastante comum no Chile. Depois disso, proibiu-se a construção de barragens com alteamento a montante, considerando a vulnerabilidade dessas estruturas ante sismos de grande magnitude.

“Acredito que a proibição das barragens com este método construtivo se justifica quando não há a certeza de que existem todas as condições técnicas e organizacionais para garantir que a construção a montante vai ser realizada da maneira correta”, explica Valenzuela. “No caso do Chile, acho que a decisão foi acertada considerando que nessa época a construção dessas barragens era desordenada, com engenharia e supervisão da operação muito pobres. Se tivesse continuado daquela forma, poderíamos ter tido um outro desastre, considerando que a partir da década de 1960 iniciou-se a mineração com grandes produções e obviamente grandes depósitos e barragens de rejeito”.

A respeito da construção de barragens de rejeito construídas a montante, Valenzuela esclarece que isso é viável desde que elas sejam projetadas de acordo com os princípios geotécnicos básicos e que a construção e operação respeitem o projeto. Barragens de rejeito construídas a montante com êxito existem, por exemplo, na Austrália e Canadá.

A esperança brasileira

Valenzuela atuou no Brasil durante muitos anos e conhece bem o país. Para ele, o tratamento dado às barragens de rejeito aqui já começou a mudar. “Ninguém mais está propondo construção a montante. Não tenho dúvidas de que daqui para frente a construção das barragens brasileiras será diferente”.

“O grande desafio do Brasil é o que fazer com as barragens de rejeitos já construídas fora do padrão aceitável. Como desativar? Onde depositar o rejeito que será tirado dali?”, alerta. “Não é uma tarefa fácil…”.

A análise de risco é essencial. A gestão do risco é essencial. Dentro da análise de risco é essencial analisar todos os possíveis modos de falha e tentar determinar em cada caso a probabilidade dessa ocorrência. O objetivo da análise de risco deveria ser obter a probabilidade de ruptura ou de falha da barragem para cada modo de falha e identificar a probabilidade mais alta. A mineradora deveria poder determinar a probabilidade de falha que dê garantias a sociedade. Várias organizações têm analisado este aspecto e têm definido o que eles denominam como limites toleráveis de risco. A UNCOLD é uma destas organizações.

“Os profissionais e as empresas não gostam muito disso porque é difícil de calcular”, diz Valenzuela. “Mas é importante tentar. Só o processo de tentar já faz com que pensemos nisso. E a pior coisa que pode acontecer na gestão de uma barragem é não pensar na falha”.

O cálculo da segurança

Atualmente, a legislação da maioria dos países exige que o fator de segurança de uma barragem seja superior a 1,3 ou 1,5. Luis Valenzuela conversou com a reportagem da ABMS e explicou que, na realidade, o fator de segurança não é o critério mais relevante para assegurar a segurança da barragem. Uma barragem com fator de segurança 1,4 pode ser menos vulnerável que uma outra que tenha fator de segurança 1,79, mas que apresenta maior nível de incerteza, resultando em uma maior probabilidade de falha, conforme mostra o gráfico abaixo.

Mas as incertezas nos parâmetros que definem o fator de segurança não são os únicos que influem na segurança final da barragem. Outros aspectos que não ficam refletidos no fator de segurança são a qualidade da engenharia, da construção e da operação. Um bom projeto, uma execução cuidadosa e uma operação seguindo as recomendações internacionais são fatores que influenciam diretamente no risco da barragem em forma positiva.

Fonte: ABMS

GeoHydroTech Engenharia

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