Atualização sobre o rompimento da barragem em Brumadinho MG

por Hugo Rocha em 28/Jan/2019
Atualização sobre o rompimento da barragem em Brumadinho MG

Na última sexta-feira (25) a barragem 1 do complexo Mina do Feijão, da mineradora Vale, rompeu-se em Brumadinho (MG), a cerca de 60 km de Belo Horizonte, na região metropolitana. Quase treze milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério despencaram da barragem atingindo a área administrativa da Vale, comunidades da região, e o rio Paraopeba, na Bacia do Rio São Francisco.

A tragédia aconteceu pouco mais de três anos depois da queda da barragem do Fundão, em Mariana, até então considerado o maior crime ambiental da história do país.

Mortos e desaparecidos

O Corpo de Bombeiros informou na noite de domingo (27) que pelo menos 58 pessoas morreram. Ao todo, 192 pessoas foram resgatadas nos dois primeiros dias, mas nenhum sobrevivente foi encontrado no terceiro dia de buscas. O Instituto Médico Legal divulgou que já identificou 19 corpos.

Os bombeiros também informaram que 305 pessoas são consideradas desparecidas, número que coincide com o levantamento feito pela mineradora Vale. Com essa informação, a queda da barragem em Brumadinho já fez mais vítimas que o desastre ambiental de Mariana, em 2015, que deixou 19 mortos.

Quantas barragens se romperam?

Vale e bombeiros divergem quanto ao número de barragens rompidas. A empresa diz que uma barragem, a de número 1, se rompeu, e uma outra pode ter transbordado ao receber o excesso de material da primeira. Já o Corpo de Bombeiros afirma que foram três barragens, e não apenas uma, que se romperam.

Segundo o tenente Pedro Aihara, porta-voz dos Bombeiros, o rompimento da primeira barragem acabou sobrecarregando as outras duas, que romperam em seguida.

A chamada Barragem 1, epicentro da tragédia, foi construída em 1976 e não recebia material há pelo menos três anos. Segundo o site da Vale, o beneficiamento do minério na unidade é feito a seco.

Existe risco de outro rompimento?

Por volta das 5h30 deste domingo, sirenes tocaram em Brumadinho, e os moradores foram alertados sobre o risco de um novo rompimento. Um aviso os orientava a buscar as regiões mais altas da cidade. Durante toda a manhã, autoridades pediram que a população buscasse três pontos seguros: uma igreja no centro de Brumadinho, o quartel policial e o morro do Querosene.

A Defesa Civil, no entanto, descartou horas depois o risco de queda da barragem 6 do Complexo Mina do Feijão, e as pessoas puderam voltar para suas casas. Segundo o tenente-coronel da Defesa Civil, Flávio Godinho, no entanto, a barragem continua sendo monitorada e drenada. Os níveis de água continuarão sendo medidos, e novos alertas podem ser emitidos em caso de risco.

Ajuda de Israel

A partir desta segunda-feira (28), devem ser utilizados equipamentos trazidos por uma missão israelense. Segundo o governo de Minas Gerais, 136 militares israelenses irão auxiliar nos trabalhos de buscas e salvamentos das vítimas da barragem. Os militares chegaram ao Brasil na noite deste domingo (27).

O porta-voz da Presidência, general Otávio Rêgo Barros, afirmou em entrevista coletiva que o Brasil recebeu uma 'valorosa ajuda do governo de Israel.'

Vale tem R$ 11 bilhões bloqueados

A Justiça de Minas Gerais já bloqueou R$ 11 bilhões da Vale para compensar os prejuízos e danos ambientais provocados pelo rompimento da barragem em Brumadinho.

No primeiro pedido, no fim da sexta-feira (25), a Justiça acatou a um bloqueio de R$ 1 bilhão requisitado pelo governo do Estado de Minas Gerais. No último sábado (26), o Ministério Público mineiro requisitou o bloqueio de R$ 5 bilhões para reparação ambiental. E, no domingo (27), o MP-MG pediu outro bloqueio de R$ 5 bilhões, desta vez para amparar as vítimas da tragédia, e foi atendido.

O que pode ter causado a tragédia?

Ainda não se sabe as causas do rompimento da primeira barragem, mas o diretor da Sociedade Brasileira de Geologia, Fábio Braz Machado, tem uma hipótese. Para ele, uma combinação de pequenos tremores de terra e problemas na conservação das barragens pode ter sido a raiz do desastre.

Os moradores da região foram avisados do rompimento?

Segundo uma moradora da região, não houve aviso. 'Há poucos meses, técnicos estiveram aqui na cidade para passar instruções da sirene. Falaram que, em caso de emergência, iria tocar. Mas não foi bem assim', disse Maria Aparecida dos Santos.

O presidente da Vale, Fabio Schvartsman disse à imprensa que não sabia 'se a sirene funcionou'.

Vai faltar água na região?

A Copasa (Companhia de Saneamento de Minas Gerais) informa que o abastecimento de água da região metropolitana de Belo Horizonte não será prejudicado com o rompimento da barragem. Autoridades disseram ainda que os reservatórios de água da região estão com boa capacidade e darão conta do fornecimento para a área. Até a próxima quarta-feira (30) uma análise da água deve ser feita para constatar se há contaminação.

Quais medidas foram adotadas pelo governo Bolsonaro?

Após dizer que a questão da Vale não tem nada a ver com o governo federal, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) criou um conselho e um comitê para monitorar os desdobramentos da tragédia.

No sábado (26), o presidente sobrevoou a região atingida pela tragédia. Bolsonaro usou o Twitter para dizer que é 'difícil ficar diante de todo esse cenário e não se emocionar' e prometer que o governo fará o que estiver ao seu alcance para atender as vítimas, minimizar danos, apurar os fatos, cobrar justiça e prevenir novas tragédias, citando ainda o desastre de Mariana (MG), há mais de três anos.

Neste domingo, Bolsonaro, que passa por uma cirurgia na segunda-feira (28), afirmou em um vídeo que é 'solidário aos familiares e às vítimas'. O presidente ainda classificou a tragédia da Vale como 'barbaridade'.

Quais medidas foram adotadas pelo governo de MG?

O governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), declarou que o governo do estado instalou um gabinete de gestão de crise para avaliar o incidente com as três barragens.

No sábado, Zema sobrevoou a região ao lado de Bolsonaro e declarou que, numa análise preliminar, todos os alvarás e licenças relativas à mina estavam em dia. O governador disse ainda que os responsáveis terão punição exemplar.

A Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais determinou a 'suspensão imediata' de todas as atividades da Vale em Brumadinho (MG), na região metropolitana de Belo Horizonte, a cerca de 60 km da capital. A decisão foi tomada em reunião extraordinária no fim da noite de sexta-feira (25), na sede do órgão, na capital do estado.

O que disse a Vale?

Fabio Schvarstman, presidente da mineradora Vale, responsável pela barragem, afirmou que a estrutura eclodida na sexta-feira estava dentro das normas e amparada por 'auditorias externas, feitas com empresas internacionais'.

O CEO também foi questionado sobre a revelação da Folha de S. Paulo de que a barragem de Feijão faz parte de um complexo que foi ampliado no final de 2018. 'Não sei te responder, mas deve ter sido para ampliar outra barragem', afirmou.

No domingo (27), Schvartsman afirmou que é preciso intensificar a implantação de mecanismos de segurança nas barragens. 'Vamos criar um colchão de segurança bastante superior ao que a gente tem hoje para garantir que nunca mais aconteça um negócio desse.', afirmou à GloboNews.

O que dizem as agências reguladoras

A principal barragem da mineradora Vale que se rompeu não estava em situação de risco, de acordo com a ANA (Agência Nacional de Águas).

Em um comunicado divulgado na noite de sexta (25), a ANA informou que a barragem não foi classificada como 'crítica' pela ANM (Agência Nacional de Mineração), responsável pelas informações das barragens de rejeito de minério, para a elaboração do Relatório de Segurança de Barragens 2017.

O documento é consolidado pela ANA a partir de informações disponibilizadas pelos órgãos responsáveis pela fiscalização de barragens, a depender de seu tipo de uso (produção de energia elétrica, contenção de rejeitos de mineração ou usos múltiplos da água).

Quais as semelhanças com Mariana?

O caso de Brumadinho acontece três anos e dois meses após o rompimento de uma barragem da Samarco em um distrito de Mariana, também em Minas Gerais. A Vale é uma das controladoras da Samarco. Dezenove pessoas morreram na ocasião e milhares perderam as casas em função do vazamento de 40 bilhões de litros de lama.

Segundo o site da mineradora Vale, a barragem principal que rompeu nesta sexta-feira tinha capacidade de 12,7 milhões de metros cúbicos. Para efeito de comparação, a barragem da Samarco, operada pela Vale com a australiana BHP, tinha 50 milhões de metros cúbicos de rejeitos.

Fonte: UOL

Hugo Rocha

Engenheiro Civil pela UFOP, Mestre em Hidráulica e Saneamento pela USP. Experiência na elaboração de projetos de novas barragens para armazenamento de água e rejeitos de mineração, estudos hidrológicos e hidráulicos, auditoria de segurança em barragens existentes, Planos de Segurança de Barragens (PSB), Planos de Ações de Emergência (PAE) e estudos de ruptura hipotética de barragens (Dam Break).

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